Por Ezequiel Peressini, dirigente da Izquierda Socialista e da UIT-QI.
09/02/2026. Na tarde de domingo, 8 de fevereiro, o Super Bowl foi realizado no Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia. O Seattle Seahawks derrotou o New England Patriots por 29 a 13 e se tornou campeão do esporte mais popular dos Estados Unidos, o futebol americano. Mas não se trata apenas do esporte. Os shows de abertura e do intervalo sempre contam com apresentações musicais espetaculares, tornando o Super Bowl o evento mais assistido todo ano nos Estados Unidos.
A banda de punk rock Green Day abriu o show e apresentou novamente as principais músicas do álbum “American Idiot”, 22 anos após seu lançamento. A capa do álbum, com uma mão segurando uma granada em formato de coração sangrando, é uma poderosa denúncia do imperialismo estadunidense. O intervalo ficou por conta de Bad Bunny e seus convidados, que se juntaram a ele no palco com uma cenografia que transformou o Levi’s Stadium em Porto Rico. Lá, ele apresentou algumas músicas de seu álbum mais recente, “Debí tirar más fotos”, pelo qual ganhou o Grammy apenas uma semana antes. A presença desses dois grupos musicais já havia provocado a ira de Donald Trump, que anunciou que não participaria do evento, considerando os músicos “esquerdistas”, que questionam suas políticas anti-imigração e os sequestros em massa realizados pelo ICE.
A presença de Bad Bunny, suas músicas e o cenário do palco transformaram o intervalo do Super Bowl num grande evento político internacional e numa bofetada na cara de Donald Trump. Exibiu de forma impactante as vidas, os territórios e os costumes de milhões de latinos, que são perseguidos nos Estados Unidos pelo ICE e enfrentam a política de deportações de Trump.
Uma exaltação da vida latina no coração do imperialismo
Desde o início, o espetáculo foi impressionante. Em um campo de jogo repleto de cana-de-açúcar, em que trabalhadores da indústria açucareira realizavam suas tarefas, Bad Bunny caminhava, cantando suas músicas. Ao longo do caminho, surgiam as clássicas barracas de comida de rua, em que a classe trabalhadora latino-americana almoça, assim como uma mesa onde quatro homens jogavam dominó; e, em outra, duas mulheres faziam as unhas numa manicure de rua enquanto conversavam. Perto dali, um grupo de mulheres trabalhadoras da construção civil levantava um muro. Antes de chegar à casa rosa, em que acontecia uma festa — com a presença do renomado ator chileno Pedro Pascal —, o boxeador porto-riquenho Xander Zayas e o mexicano-americano Emiliano Vargas eram vistos treinando. O reggaeton tocou por cerca de 15 minutos e foi apresentado por Bad Bunny como a música “dos bairros e conjuntos habitacionais” de Porto Rico. O “Sapo Concho”, uma representação gráfica do típico sapo porto-riquenho, apareceu como uma bandeira nos telões do estádio, e um casamento de verdade aconteceu no mesmo local em que Lady Gaga havia se apresentado, destacando sua colaboração com Benito e suas dificuldades após denunciar o ICE e Trump em seu último show no Japão. Depois do casamento, tão latino que até uma criança despertou do sono nas cadeiras enquanto as pessoas dançavam, Bad Bunny disse “Nova York” e então o cenário mudou. O bairro de NYC e La Marqueta – o mercado latino mais famoso do East Harlem, em Manhattan – tomaram a cena.
Bad Bunny não se apresentou sozinho. Contou com a participação de Ricky Martin, que interpretou a icônica canção “Lo que pasó en Hawaii” e cantou: “Eles querem levar meu rio e minha praia / Eles querem meu bairro e que a vovó vá embora / Não, não soltem a bandeira nem esqueçam o lelolai / Porque eu não quero que façam com vocês o que aconteceu com o Havaí.” Depois da simulação de um apagão e da cantoria diante de postes de luz e transformadores danificados, as pessoas desfilaram pelos canaviais carregando as bandeiras dos 36 países do continente americano. Bad Bunny nomeou os países um a um, do sul ao norte, encerrando a apresentação jogando uma bola de futebol americano e gritando: “Ainda estamos aqui!”
A performance e a presença de palco de Bad Bunny emocionaram quase 70 milhões de latino-americanos residentes nos Estados Unidos e ressoaram com os protestos em curso, assim como suas ações anteriores, quando ganhou o Grammy de 2026 e declarou “Fora ICE”, junto com diversos outros artistas que condenaram as batidas, detenções, sequestros e assassinatos realizados pelo ICE. Esse sentimento também foi fortemente refletido no Super Bowl, quando Bad Bunny dedicou o seu Grammy a um pequeno menino latino, em homenagem a Liam “Conejo” Ramos, de 5 anos, que havia sido detido pelo ICE.
O renomado jornalista esportivo da ESPN, John Sutcliffe, não conseguiu conter a emoção, após transmitir o Super Bowl por 34 anos, e declarou: “Como mexicano-americano, é normal se emocionar; não importa de qual país latino-americano você seja, sinta orgulho de Benito ter cantado em espanhol na maior festa dos estadunidenses.” Ele então exclamou: “Viva Bad Bunny!”


