{"id":20351,"date":"2024-12-09T16:56:18","date_gmt":"2024-12-09T16:56:18","guid":{"rendered":"http:\/\/uit-ci.org\/?p=20351"},"modified":"2024-12-09T16:56:18","modified_gmt":"2024-12-09T16:56:18","slug":"caiu-bashar-al-assad-fim-de-54-anos-de-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uit-ci.org\/index.php\/2024\/12\/09\/caiu-bashar-al-assad-fim-de-54-anos-de-ditadura\/?lang=pt-br","title":{"rendered":"Caiu Bashar al-Assad: fim de 54 anos de ditadura"},"content":{"rendered":"<p>O regime s\u00edrio ruiu como um castelo de cartas. De uma forma totalmente inesperada, caiu em menos de duas semanas: ru\u00edram o ex\u00e9rcito, a pol\u00edcia e as pris\u00f5es constru\u00eddas durante 54 anos de ditadura criminosa. As pessoas nas cidades rebelaram-se, esvaziaram as pris\u00f5es, derrubaram est\u00e1tuas do ditador pai e do ditador filho. Os prisioneiros da ditadura sa\u00edram \u00e0s ruas numa nova S\u00edria. A pol\u00edcia e os soldados entraram em p\u00e2nico e desertaram em massa.<\/p>\n<p>A ofensiva da coliga\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o parecia incapaz de mudar a situa\u00e7\u00e3o, quando come\u00e7ou h\u00e1 apenas dez dias. As suas armas eram rid\u00edculas, se comparadas com as da ditadura, apoiada pela R\u00fassia e pelo Ir\u00e3. O regime de Bashar al-Assad lan\u00e7ou milhares de barris de dinamite contra bairros indefesos; atacou o seu pr\u00f3prio povo com armas qu\u00edmicas; ergueu pris\u00f5es, que eram enormes centros de tortura, com cremat\u00f3rios inclu\u00eddos, como em Sednaya; cortou as cordas vocais dos cantores e jogou-os nos rios; estuprou milhares de homens e mulheres; bombardeou escolas e hospitais.<\/p>\n<p>Toda esta maquinaria de terror, \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o foi usada contra o povo s\u00edrio gra\u00e7as ao apoio das ditaduras da R\u00fassia e do Ir\u00e3, que socorreram al-Assad guiados por seus pr\u00f3prios interesses. Os Estados Unidos e Israel deixaram bem claro que preferiam que al-Assad permanecesse no poder frente ao risco de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, com potencial para desestabilizar toda a regi\u00e3o. Quando o apoio de Teer\u00e3 e Moscou enfraqueceu, o povo s\u00edrio viu que o imperador estava nu e que esta era a sua oportunidade de derrub\u00e1-lo. N\u00e3o foi apenas uma ofensiva militar rebelde, foi uma revolta popular. Daraa, ber\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 2011, foi libertada sem esperar o avan\u00e7o das colunas rebeldes.<\/p>\n<p>Uma a\u00e7\u00e3o militar surpresa desencadeou uma rebeli\u00e3o, revelando a fragilidade de um aparelho de seguran\u00e7a que parecia invenc\u00edvel. O regime s\u00edrio foi um pilar de estabilidade em toda a regi\u00e3o. Portanto, todos os governos da \u00e1rea temiam a sua queda. Isso foi afirmado pelos governos do Qatar, do Iraque, da Ar\u00e1bia Saudita, da Jord\u00e2nia, do Egito, do Ir\u00e3, da Turquia e da R\u00fassia, numa declara\u00e7\u00e3o conjunta divulgada no s\u00e1bado, 7 de dezembro, um dia antes da fuga de Bashar. Alguns desses governos atacaram e outros defenderam al-Assad, mas nenhum deles alguma vez quis o triunfo de uma revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pudessem controlar.<\/p>\n<p>A queda de Al-Assad \u00e9 uma boa not\u00edcia para os povos do Oriente M\u00e9dio e de todo o mundo. A repress\u00e3o sangrenta da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria foi uma barreira para o processo revolucion\u00e1rio que come\u00e7ou em 2011. E, muitos anos depois, a S\u00edria ainda era usada como demonstra\u00e7\u00e3o de que a liberdade era imposs\u00edvel nos pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e do Norte de \u00c1frica. Na Arg\u00e9lia, no Egito, no L\u00edbano\u2026 quando algu\u00e9m levantava a cabe\u00e7a diante do regime no poder, era amea\u00e7ado com outra S\u00edria, ou seja, com um massacre.<\/p>\n<p>O povo s\u00edrio e a coliga\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o deixaram muito claro o seu apoio \u00e0 Palestina. O Hamas, ao contr\u00e1rio do Hezbollah, tamb\u00e9m rompeu com o assassino regime s\u00edrio. Ningu\u00e9m consegue compreender melhor o genoc\u00eddio acelerado em Gaza do que o povo s\u00edrio, porque tem estado sob bombardeios sistem\u00e1ticos, cercos de fome e sede, e deslocamentos em massa durante 14 anos. Aleppo foi libertada com bandeiras da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e da Palestina. Os rebeldes j\u00e1 atacaram posi\u00e7\u00f5es israelenses na ocupada Gol\u00e3. Uma S\u00edria livre pode ser \u00fatil \u00e0 causa palestina, ao contr\u00e1rio de um regime podre e assassino, que nunca disparou um \u00fanico tiro contra Israel, nem mesmo agora, com o genoc\u00eddio em Gaza em curso. Israel disse e repetiu, ao longo da revolu\u00e7\u00e3o, que preferia que Bashar al-Assad continuasse no poder e, nos \u00faltimos dias, amea\u00e7ou a oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria. Al-Assad apoiava a causa palestina apenas com palavras, mas na realidade era o melhor guardi\u00e3o da fronteira norte de Israel. Nas \u00faltimas semanas, ele reagiu aos ataques israelenses contra as posi\u00e7\u00f5es iranianas na S\u00edria com o lac\u00f4nico \u201cresponderemos quando for o momento certo\u201d. E o momento certo nunca chegou, em 54 anos.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria foi abandonada pela maioria da esquerda em todo o mundo, ancorada nos preceitos do stalinismo e do colonialismo. Agora esses mestres da confus\u00e3o continuar\u00e3o a justificar o injustific\u00e1vel: seguir\u00e3o dizendo que existem ditaduras boas, como os regimes da S\u00edria, do Ir\u00e3 ou da R\u00fassia, nas quais nenhum deles gostaria de viver. Eles continuar\u00e3o a defender uma l\u00f3gica de blocos est\u00fapida, em que se presume que se pode ser anti-imperialista e afogar o seu pr\u00f3prio povo em sangue. Eles contam com o aparato de propaganda de Putin, da falsa esquerda e do falso anti-imperialismo reformista de Maduro (Venezuela), Daniel Ortega (Nicar\u00e1gua) e Diaz-Canel (Cuba) ao seu lado\u2026 Por\u00e9m, nada do que eles dizem \u00e9 v\u00e1lido, tendo em vista o que acontece na S\u00edria. A \u00fanica maneira de enquadrar a sua an\u00e1lise na realidade \u00e9 distorc\u00ea-la.<\/p>\n<p>A queda de Bashar significa o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2011, como parte do processo revolucion\u00e1rio que se iniciou na Tun\u00edsia e derrubou ditaduras com mais de 30 anos de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria n\u00e3o \u00e9 um mar de rosas. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9. H\u00e1 muitos desafios pela frente. Neste momento, os islamitas do HTS, que encabe\u00e7aram a coliga\u00e7\u00e3o que liderou a ofensiva militar, e o PYD curdo est\u00e3o em conversa\u00e7\u00f5es sobre o futuro da S\u00edria. S\u00f3 uma S\u00edria que reconhe\u00e7a todo o seu povo pode ser um pa\u00eds livre e democr\u00e1tico. N\u00f3s, da UIT-QI, como socialistas revolucion\u00e1rios, que sempre apoiamos a revolu\u00e7\u00e3o, junto com a esquerda s\u00edria, n\u00e3o apoiamos e nem temos qualquer confian\u00e7a pol\u00edtica nessa dire\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o de fundo continua a ser a luta por uma S\u00edria Socialista, sob um governo dos\/as trabalhadores\/as e dos setores populares. Apoiamos e somos solid\u00e1rios com o povo s\u00edrio e com este primeiro triunfo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O canto da sereia do estalinismo e da esquerda reformista, que criticam a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria por conta da sua dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o tem efic\u00e1cia. As vozes de esquerda na S\u00edria foram silenciadas, com a cumplicidade ativa dessa esquerda internacional cega e colonial. A esquerda que hoje est\u00e1 no ex\u00edlio \u2013 e com quem n\u00f3s, da UIT-QI, tivemos a honra de trabalhar lado a lado \u2013 pode desempenhar um papel importante na luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova S\u00edria.<\/p>\n<p>Os recentes acontecimentos, que mudaram o mapa da S\u00edria, s\u00f3 podem ser compreendidos a partir desta abordagem: por um lado, o colapso de um regime degenerado, que perdeu a sua base social e s\u00f3 conseguiu se manter no poder com o apoio militar de for\u00e7as externas; por outro lado, o avan\u00e7o militar de uma coliga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, com caracter\u00edsticas reacion\u00e1rias, reflete de forma distorcida a reivindica\u00e7\u00e3o leg\u00edtima do povo pela derrubada da ditadura. Temos grandes diferen\u00e7as pol\u00edticas com o HTS (o grupo que liderou a ofensiva militar dentro da coliga\u00e7\u00e3o), com os rebeldes que confiaram na Turquia e com a dire\u00e7\u00e3o curda (PYD). Tamb\u00e9m temos grandes diferen\u00e7as com o Hamas e isso n\u00e3o nos impede de apoiar integralmente o povo palestino. Com o ditador Bashar al-Assad fora do poder, a luta entra numa nova fase, com outras exig\u00eancias: pela garantia de plenas liberdades democr\u00e1ticas, pela retirada de todas as for\u00e7as militares estrangeiras e pelas reivindica\u00e7\u00f5es sociais pendentes, por conta da explora\u00e7\u00e3o capitalista imperialista.<\/p>\n<p><strong>Viva a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria livre!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Viva a solidariedade entre os povos!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Palestina livre, do rio ao mar!<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (UIT-QI)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>08 de dezembro de 2024<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O regime s\u00edrio ruiu como um castelo de cartas. 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