{"id":20388,"date":"2024-12-12T19:19:18","date_gmt":"2024-12-12T19:19:18","guid":{"rendered":"http:\/\/uit-ci.org\/?p=20388"},"modified":"2024-12-12T19:19:18","modified_gmt":"2024-12-12T19:19:18","slug":"a-primavera-siria-chegou-no-inverno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uit-ci.org\/index.php\/2024\/12\/12\/a-primavera-siria-chegou-no-inverno\/?lang=pt-br","title":{"rendered":"A primavera s\u00edria chegou no inverno"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por <\/span><b>Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista (Argentina) e da UIT-QI<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A queda da ditadura de Bashar al-Assad \u00e9 o triunfo de treze anos da revolu\u00e7\u00e3o popular iniciada em mar\u00e7o de 2011. A S\u00edria fez parte das revolu\u00e7\u00f5es no Norte de \u00c1frica e no M\u00e9dio Oriente que come\u00e7aram em janeiro de 2011 na Tun\u00edsia, que foram ent\u00e3o designadas por &#8216;primavera \u00c1rabe&#8217;. Na S\u00edria, o inverno est\u00e1 a come\u00e7ar, pelo que podemos dizer que a \u201cprimavera s\u00edria\u201d chegou no inverno.<\/span><\/p>\n<p><strong>A ditadura caiu com uma rapidez imprevis\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apanhou toda a gente de surpresa. Sobretudo ao pr\u00f3prio ditador, aos seus aliados sanguin\u00e1rios de R\u00fassia e Ir\u00e3o, ao imperialismo norte-americano e ao sionismo genocida de Israel. Entre par\u00eantesis, conv\u00e9m esclarecer que os grupos rebeldes isl\u00e2micos n\u00e3o tiveram qualquer apoio nem foram encorajados pelos EUA e por Israel, como espalharam os rumores dos defensores de Al Assad.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Donald Trump apelou a que n\u00e3o se \u201cenvolvam\u201d: \u201cA S\u00edria \u00e9 uma confus\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 nossa amiga e os Estados Unidos n\u00e3o devem ter nada a ver com isso. Esta n\u00e3o \u00e9 a nossa luta (&#8230;) N\u00e3o nos vamos envolver\u201d (La Naci\u00f3n, Argentina, 7\/12\/2024). Ao mesmo tempo, Biden ordenou 75 bombardeamentos numa zona com o argumento de atacar o Estado Isl\u00e2mico. Por outro lado, Israel saudou a queda de Bashar mas a primeira coisa que fez foi tomar mais territ\u00f3rio s\u00edrio em torno dos Montes Golan, terras s\u00edrias ocupadas desde 1967, como medida de \u201cseguran\u00e7a preventiva\u201d, e bombardeou alegados \u201carsenais qu\u00edmicos\u201d. De tal forma que at\u00e9 a ONU os exortou a parar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em contrapartida, foi o Hamas, l\u00edder da resist\u00eancia palestiniana, que saudou a queda da ditadura atrav\u00e9s de um comunicado. O Hamas felicitou o povo s\u00edrio por ter alcan\u00e7ado as suas \u201caspira\u00e7\u00f5es de liberdade e justi\u00e7a\u201d e fez votos para que a S\u00edria p\u00f3s-Bashar continue \u201co seu papel hist\u00f3rico e fundamental no apoio ao povo palestiniano\u201d (Ag\u00eancia Reuters, 9\/12\/2024). Ao mesmo tempo, os rebeldes libertavam mais de 600 prisioneiros palestinianos das pris\u00f5es do regime.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">V\u00e1rios elementos se conjugaram para esta sua queda acelerada em apenas 12 dias. Entre eles, a fraqueza da R\u00fassia, concentrada com a guerra na Ucr\u00e2nia, e do Ir\u00e3o-Hezbollah, abatido no L\u00edbano. Mas o elemento central foi o facto de o regime de Bashar ser um \u201ctigre de papel\u201d, sustentado apenas pelo apoio militar iraniano e pela avia\u00e7\u00e3o russa. N\u00e3o tinha quase nenhuma base social e era odiado por milh\u00f5es de s\u00edrios que estavam \u00e0 espera do momento de o derrubar. E esse momento chegou com a queda de Alepo, a 30 de novembro. Ningu\u00e9m estava disposto a \u201cdar a vida\u201d por Bashar. O pr\u00f3prio ex\u00e9rcito s\u00edrio desmoronou perante as primeiras a\u00e7\u00f5es dos rebeldes. Houve alguns bombardeamentos de avi\u00f5es russos nos primeiros dias da rebeli\u00e3o. Mas n\u00e3o foram suficientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 quem, minimizando a for\u00e7a da rebeli\u00e3o popular, assinale que tudo foi acordado a 7 de dezembro, entre a Turquia, a R\u00fassia e o Ir\u00e3o, numa reuni\u00e3o de ministros dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, planeada previamente no F\u00f3rum de Doha, na capital do Qatar, Doha. Sim, \u00e9 muito prov\u00e1vel que tenham feito um acordo, mas quando j\u00e1 estavam derrotados. Acordaram a melhor forma de se renderem, garantindo a partida para Moscovo de Bashar e da sua fam\u00edlia, procurando evitar uma maior desestabiliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Mas foi uma improvisa\u00e7\u00e3o no meio do tumulto; do transbordar da rebeli\u00e3o do povo s\u00edrio, da derrota das suas for\u00e7as e da queda iminente do regime.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A queda de Alepo abriu uma nova situa\u00e7\u00e3o. Despoletou o reavivar da mobiliza\u00e7\u00e3o de milhares e milhares de combatentes e antigos combatentes dos primeiros anos da revolta popular que come\u00e7ou em 2011. \u00c0 medida que os rebeldes avan\u00e7avam, outras cidades erguiam-se. Foi o caso das aldeias da prov\u00edncia meridional de Daraa, que foi o ber\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o de 2011. Estes combatentes n\u00e3o tinham qualquer liga\u00e7\u00e3o com a brigada HTS do norte. Invadiram esquadras de pol\u00edcia e quart\u00e9is de armas na m\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Recorde-se que a rebeli\u00e3o popular de 2011 se transformou numa guerra civil porque Bashar enviou tanques e o ex\u00e9rcito para massacrar as mobiliza\u00e7\u00f5es. O povo foi obrigado a pegar em armas para se defender e continuar a luta. E quando, em 2014, o ditador estava perdido, foi salvo pela entrada criminosa da avia\u00e7\u00e3o russa, que tem uma base no porto de Tartous.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2017, a revolu\u00e7\u00e3o foi derrotada. Mas n\u00e3o foi total. Bashar teve de conceder que a prov\u00edncia de Idlib, no nordeste da S\u00edria, ficasse nas m\u00e3os dos rebeldes que ali se t\u00eam vindo a reunir. Mais de 2 milh\u00f5es de pessoas vivem em Idlib. Os v\u00e1rios grupos rebeldes preparam-se ali h\u00e1 anos e t\u00eam mesmo f\u00e1bricas de armamento. Esta combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e a fragilidade do regime explicam a rapidez da queda da ditadura.<\/span><\/p>\n<p><strong>Para onde caminha a S\u00edria? D\u00favidas sobre o HTS\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A S\u00edria est\u00e1 a entrar numa nova situa\u00e7\u00e3o. A pergunta de um milh\u00e3o de d\u00f3lares \u00e9 o que vai acontecer.\u00a0 O novo governo provis\u00f3rio \u00e9 hegemonizado pelo HTS (Hayat Tahrir al Sham &#8211; Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o do Levante). Trata-se de uma coliga\u00e7\u00e3o burguesa nacionalista-isl\u00e2mica que re\u00fane diferentes fac\u00e7\u00f5es, desde as religiosas \u00e0s liberais. Existe uma rela\u00e7\u00e3o com a Turquia, embora se diga que Erdogan n\u00e3o tem o controlo pol\u00edtico e militar total. \u00c9 uma alian\u00e7a conservadora que governa a prov\u00edncia de Idlib desde 2017 e tem gerido os servi\u00e7os p\u00fablicos, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a justi\u00e7a, as infra-estruturas e as finan\u00e7as. O primeiro-ministro indigitado, Mohammed al-Bashir, foi ministro desse governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Abu Mohammed al-Jolani, l\u00edder do HTS, rompeu com a Al-Qaeda e o ISIS h\u00e1 anos e apresenta-se como um \u201cmoderado\u201d. Nas suas primeiras declara\u00e7\u00f5es, afirmou que \u201ca S\u00edria \u00e9 para todos&#8230; para drusos, sunitas, alau\u00edtas, crist\u00e3os e todas as religi\u00f5es\u201d. Surpreendeu ao declarar que \u201c\u00e9 estritamente proibido interferir com o vestu\u00e1rio das mulheres ou impor quaisquer exig\u00eancias relacionadas com o seu vestu\u00e1rio ou apar\u00eancia\u201d (Clar\u00edn, Argentina, 10\/12\/2024). Resta saber at\u00e9 que ponto isto ser\u00e1 real ou apenas um discurso duplo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como diz a declara\u00e7\u00e3o da UIT-QI: \u201cComo socialistas revolucion\u00e1rios, que sempre apoiam a revolu\u00e7\u00e3o junto com a esquerda s\u00edria, n\u00e3o apoiamos esta lideran\u00e7a e n\u00e3o despertamos nenhuma confian\u00e7a pol\u00edtica. A solu\u00e7\u00e3o b\u00e1sica continua a ser a continua\u00e7\u00e3o da luta por uma S\u00edria socialista sob um governo dos trabalhadores e dos setores populares\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong>Construir uma lideran\u00e7a da esquerda s\u00edria independente<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O povo s\u00edrio est\u00e1 a entrar numa nova fase de luta pela sua verdadeira liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social; por plenas liberdades democr\u00e1ticas, pelo regresso de milh\u00f5es de refugiados e pelas reivindica\u00e7\u00f5es sociais em atraso do povo trabalhador. E para esta luta fundamental \u00e9 necess\u00e1rio construir uma nova dire\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A experi\u00eancia das revolu\u00e7\u00f5es de 2011 mostrou que as revolu\u00e7\u00f5es triunfaram no plano democr\u00e1tico, ao livrarem-se de ditaduras com mais de 30 anos de exist\u00eancia. Mas, por falta de lideran\u00e7a revolucion\u00e1ria, estes processos estagnaram, como na Tun\u00edsia, ou regrediram, como no Egito e na L\u00edbia. Surgiram novos governos capitalistas de diferentes signos, que mantiveram a estrutura econ\u00f3mica capitalista atrelada aos diversos imperialismos, mantendo a mis\u00e9ria e a decad\u00eancia social dos povos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na S\u00edria, para superar este d\u00e9fice, \u00e9 necess\u00e1rio construir uma nova dire\u00e7\u00e3o, apoiando-se nos sectores da esquerda s\u00edria que, no pa\u00eds, e no ex\u00edlio, continuaram a luta contra Bashar Al Assad, a partir de uma perspetiva independente e socialista.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista (Argentina) e da UIT-QI A queda da ditadura de Bashar al-Assad \u00e9 o triunfo de treze anos da revolu\u00e7\u00e3o popular iniciada em mar\u00e7o de 2011. 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