{"id":21579,"date":"2025-04-23T15:34:14","date_gmt":"2025-04-23T15:34:14","guid":{"rendered":"http:\/\/uit-ci.org\/?p=21579"},"modified":"2025-04-23T15:34:14","modified_gmt":"2025-04-23T15:34:14","slug":"eleicoes-antecipadas-vira-o-disco-e-toca-o-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uit-ci.org\/index.php\/2025\/04\/23\/eleicoes-antecipadas-vira-o-disco-e-toca-o-mesmo\/?lang=pt-br","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es antecipadas: vira o disco e toca o mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma crise pol\u00edtica, mais uma ida \u00e0s urnas. Pela terceira vez em tr\u00eas anos, Portugal volta a elei\u00e7\u00f5es legislativas \u2014 e tudo indica que o resultado ser\u00e1 o mesmo de sempre: uma nova vers\u00e3o do mesmo desastre. Seja com Montenegro ou Pedro Nuno Santos, com o apoio da direita radical ou da esquerda institucional, a pol\u00edtica do regime \u00e9 sempre a mesma: beneficiar os milion\u00e1rios \u00e0 custa da maioria.<\/p>\n<p>A queda do governo da AD n\u00e3o foi inevit\u00e1vel. Foi uma jogada calculada, numa tentativa de evitar o desgaste prolongado e capitalizar alguma margem pol\u00edtica antes que o cen\u00e1rio se tornasse ainda mais desfavor\u00e1vel. Tal como o PS fez em 2022, tamb\u00e9m agora o PSD prefere atirar o pa\u00eds para elei\u00e7\u00f5es do que enfrentar o apodrecimento lento de um governo incapaz de responder \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o. E assim continua o ciclo viciado da altern\u00e2ncia entre PS e PSD, cada vez mais exposto, cada vez mais podre, cada vez mais in\u00fatil para quem vive do seu trabalho.<\/p>\n<p>De facto, desde 2019, nenhum governo conseguiu completar a legislatura. Tivemos elei\u00e7\u00f5es antecipadas em 2022, novamente em 2024 e, agora, em 2025. Este ciclo constante de dissolu\u00e7\u00f5es \u00e9 um reflexo do esgotamento de um sistema que j\u00e1 n\u00e3o consegue gerar consensos duradouros, nem assegurar a tal \u201cestabilidade\u201d que os partidos do regime tanto apregoam. A dificuldade em formar maiorias s\u00f3lidas, o fracasso das coliga\u00e7\u00f5es, e a permanente instabilidade parlamentar revelam um regime em decl\u00ednio \u2014 onde a crise social e econ\u00f3mica alimenta a desagrega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O governo de Ant\u00f3nio Costa, apesar da maioria absoluta alcan\u00e7ada em 2022, caiu ap\u00f3s oito anos de gest\u00e3o marcada pelo aumento do pre\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o e caos no SNS \u2014 desgastado por greves em setores essenciais, como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o. A sua queda foi precipitada por um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o, mas o verdadeiro problema era o acumular de descontentamento popular, face a um governo que j\u00e1 n\u00e3o representava ningu\u00e9m a n\u00e3o ser os interesses de cima.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso de Montenegro, a situa\u00e7\u00e3o foi distinta. Apesar do car\u00e1ter fr\u00e1gil do seu governo minorit\u00e1rio, e de se anteciparem desde o in\u00edcio dificuldades para que conseguisse cumprir a legislatura at\u00e9 ao fim, a verdade \u00e9 que depois de ultrapassar o primeiro grande teste \u2014 a aprova\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento de Estado para 2025 \u2014 come\u00e7ava a desenhar-se um cen\u00e1rio de relativa estabiliza\u00e7\u00e3o. O governo mostrava alguma capacidade de resist\u00eancia, havia at\u00e9 uma ligeira recupera\u00e7\u00e3o da sua popularidade e, em termos pol\u00edticos, parecia poss\u00edvel que pudesse aguentar-se pelo menos at\u00e9 \u00e0 vota\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento de Estado para 2027. Por isso, a sua queda foi, para muitos, inesperada.<\/p>\n<p>Mas ao contr\u00e1rio de uma crise inevit\u00e1vel ou imposta pelas circunst\u00e2ncias, a queda do governo da AD foi, na verdade, deliberada. Montenegro preferiu provocar elei\u00e7\u00f5es antecipadas agora, enquanto ainda mant\u00e9m algum f\u00f4lego pol\u00edtico, do que arrastar-se at\u00e9 ser consumido por uma comiss\u00e3o parlamentar de inqu\u00e9rito e por novos casos e pol\u00e9micas. Tamb\u00e9m do lado do PS, apesar de partilhar com o PSD o compromisso de garantir a estabilidade necess\u00e1ria ao desenvolvimento dos neg\u00f3cios dos patr\u00f5es \u2014 assegurando que as reformas laborais, os baixos sal\u00e1rios, a conten\u00e7\u00e3o social e a explora\u00e7\u00e3o prossigam sem sobressaltos \u2014, torna-se insustent\u00e1vel afirmar-se como alternativa continuando a servir de bengala \u00e0 AD.<\/p>\n<p>Se a altern\u00e2ncia entre PS e PSD continua a ser um dos principais mecanismos de legitima\u00e7\u00e3o do regime, essa ilus\u00e3o de diferen\u00e7a entre ambos torna-se cada vez mais dif\u00edcil de sustentar quando um partido passa o tempo a viabilizar o governo do outro. Neste contexto, a convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 apenas o reflexo de uma crise conjuntural, mas o \u00a0 resultado de um sistema pol\u00edtico cada vez mais incapaz de assegurar a sua pr\u00f3pria estabilidade. Perante este cen\u00e1rio, as elei\u00e7\u00f5es de maio n\u00e3o v\u00e3o resolver nada.<\/p>\n<p>O PSD, encabe\u00e7ado por Lu\u00eds Montenegro, tem rejeitado qualquer entendimento com o Chega, mantendo o discurso da \u201clinha vermelha\u201d contra a extrema-direita. No entanto, a press\u00e3o para formar maioria poder\u00e1 colocar essa linha \u00e0 prova \u2014 sobretudo se Andr\u00e9 Ventura continuar a condicionar o debate p\u00fablico e se apresentar como \u201cinevit\u00e1vel\u201d para uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 direita.<\/p>\n<p>O Chega, por sua vez, joga num duplo registo: diz que PS e PSD s\u00e3o iguais, ao mesmo tempo que suplica ao PSD por um lugar no governo. J\u00e1 a Iniciativa Liberal tenta colocar-se como poss\u00edvel parceiro est\u00e1vel e racional do PSD. O voto a favor da mo\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a ao atual governo mostra uma tentativa clara de apresentar-se como for\u00e7a \u201cgovern\u00e1vel\u201d, capaz de contribuir para uma coliga\u00e7\u00e3o de direita.<\/p>\n<p>Do lado do PS, Pedro Nuno Santos tem pressionado ao voto \u00fatil para evitar um governo da AD, ao mesmo tempo que mant\u00e9m a possibilidade de \u201cdi\u00e1logo com todas as for\u00e7as progressistas\u201d, o que inclui BE, PCP e Livre.\u00a0 A esquerda parlamentar, por seu lado, compete pelo papel de muleta mais relevante para pressionar o PS a ser o que n\u00e3o \u00e9 nem nunca ser\u00e1. Como vem sendo habitual, BE e o PCP mant\u00eam o discurso de que n\u00e3o viabilizar\u00e3o governos liberais ou de direita, mas n\u00e3o descartam entendimentos com o PS, e o Livre, mais direto, surge como o parceiro mais dispon\u00edvel para um acordo p\u00f3s-eleitoral.<\/p>\n<p>No meio da fragmenta\u00e7\u00e3o, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o pr\u00f3ximo governo dependa de acordos parlamentares e coliga\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis, com chantagens constantes ao PSD por parte da extrema-direita ou concess\u00f5es imperdo\u00e1veis ao PS por parte da esquerda. Por isso, nenhuma destas solu\u00e7\u00f5es que procuram dar maior estabilidade a um governo do PSD ou do PS representa uma alternativa real para os trabalhadores e a juventude. Para a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u2014 trabalhadores, jovens, reformados, imigrantes \u2014, qualquer um destes governos significa mais do mesmo: sal\u00e1rios baixos, rendas alt\u00edssimas, precariedade, degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e repress\u00e3o crescente.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es antecipadas n\u00e3o s\u00e3o sinal de vitalidade democr\u00e1tica. S\u00e3o o reflexo de um regime esgotado, que j\u00e1 n\u00e3o consegue esconder o seu pr\u00f3prio fracasso. A instabilidade permanente, a crise social crescente e o desespero generalizado mostram que o regime sa\u00eddo do 25 de Novembro est\u00e1 em decomposi\u00e7\u00e3o \u2014 comprometido com os interesses econ\u00f3micos, \u00e9 incapaz de oferecer uma sa\u00edda para a juventude, para os trabalhadores, para quem est\u00e1 a ser empurrado para fora das cidades ou para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a extrema-direita cresce, explorando a frustra\u00e7\u00e3o gerada por d\u00e9cadas de trai\u00e7\u00f5es. Mas, longe de representar uma solu\u00e7\u00e3o, o Chega e a Iniciativa Liberal querem aplicar vers\u00f5es ainda mais violentas do mesmo programa de sempre: mais explora\u00e7\u00e3o, menos direitos, mais repress\u00e3o. E a esquerda institucional, incapaz de romper com este regime e de defender um programa radical contra os governos dos patr\u00f5es, continua \u00e0 espera de lhe ser concedido o papel de for\u00e7a de apoio do PS \u2014 mesmo depois de tudo o que este fez ao SNS, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, aos direitos laborais e \u00e0 juventude.<\/p>\n<p>O que falta n\u00e3o \u00e9 mais um partido que viva de e para o Parlamento. O que falta \u00e9 uma alternativa real, constru\u00edda a partir das lutas, com os p\u00e9s na rua e um projeto pol\u00edtico que enfrente de frente os interesses das elites, surgida n\u00e3o para \u201cremendar\u201d o regime, mas para enfrent\u00e1-lo. Uma alternativa que n\u00e3o aceite continuar a dan\u00e7ar ao som do mesmo disco riscado da altern\u00e2ncia entre PS e PSD, nem que a extrema-direita seja o canal da revolta social. E que assuma, de forma clara, que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas quem governa \u2014 mas o sistema ao servi\u00e7o de quem governa.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso construir uma alternativa que aponte para um novo projeto de pa\u00eds, com a classe trabalhadora no centro. O Trabalhadores Unidos \u00e9 uma ferramenta dessa constru\u00e7\u00e3o \u2013 um novo partido, feito para lutar, organizar e vencer. Porque n\u00e3o basta resistir. E este editorial \u00e9 um convite: n\u00e3o fiques a ouvir o mesmo disco de sempre. Junta-te a quem est\u00e1 a preparar uma nova m\u00fasica. Uma que fale de justi\u00e7a, igualdade e revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma crise pol\u00edtica, mais uma ida \u00e0s urnas. Pela terceira vez em tr\u00eas anos, Portugal volta a elei\u00e7\u00f5es legislativas \u2014 e tudo indica que o resultado ser\u00e1 o mesmo de sempre: uma nova vers\u00e3o do mesmo desastre. 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