{"id":25502,"date":"2026-01-28T16:35:46","date_gmt":"2026-01-28T16:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/uit-ci.org\/?p=25502"},"modified":"2026-01-28T16:35:46","modified_gmt":"2026-01-28T16:35:46","slug":"as-presidenciais-e-a-crise-de-regime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uit-ci.org\/index.php\/2026\/01\/28\/as-presidenciais-e-a-crise-de-regime\/?lang=pt-br","title":{"rendered":"As Presidenciais e a crise de regime"},"content":{"rendered":"<p><strong>Trabalhadores Unidos<\/strong>, sec\u00e7\u00e3o da UIT-QI em Portugal<\/p>\n<p>As presidenciais de 2026 acabaram por ser uma montanha russa; das sondagens que davam para todos os gostos, acabamos com uma segunda volta entre Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro e Andr\u00e9 Ventura. A fragmenta\u00e7\u00e3o nestas elei\u00e7\u00f5es e a dificuldade da classe dominante em levar os seus candidatos favoritos \u00e0 segunda volta revela a crise de regime em Portugal. Desta conjuntura, s\u00f3 se poderia esperar as Presidenciais mais concorridas de sempre e com um resultado que n\u00e3o deixaria ningu\u00e9m satisfeito.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong><br \/>\nSeguro e Ventura na segunda volta<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro \u2013 candidato que o PS lan\u00e7ou s\u00f3 para poder dizer que participava tamb\u00e9m na corrida a Bel\u00e9m \u2013 saltou da insignific\u00e2ncia para vir a ganhar a 1\u00aa volta com pouco mais de 30% dos votos. Seguro correu numa campanha altamente despolitizada, evitando envolver-se em pol\u00e9micas e limitando ao m\u00e1ximo as suas cr\u00edticas ao Governo da AD. Contando com o \u201cvoto \u00fatil\u201d em si do setor \u00e0 esquerda do PS, focou-se em buscar eleitorado mais centrista da AD.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Ventura \u2013 candidato que tamb\u00e9m n\u00e3o tinha sido a sua pr\u00f3pria primeira escolha, tendo revelado que preferia Passos Coelho \u2013 acabou em segundo lugar com 23%. Ventura, que n\u00e3o tenciona vencer as elei\u00e7\u00f5es, usou a campanha para n\u00e3o ficar de fora da cena medi\u00e1tica e empurrar o discurso para a direita xen\u00f3foba. A maior parte da sua campanha centrou-se na pol\u00e9mica \u00e0 volta dos seus cartazes racistas, instrumentalizando os preconceitos e a consci\u00eancia mais atrasada de uma parte da classe trabalhadora e mobilizando um setor da pequena-burguesia em crise.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong><br \/>\nOs candidatos do regime que ficaram de fora\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Cotrim Figueiredo foi um dos que mais amargamente sentiu a derrota. Depois de v\u00e1rias sondagens a dar-lhe o cheirinho da vit\u00f3ria na 1\u00aa volta, acaba a noite com 16% a uma dist\u00e2ncia de 400 mil votos de Ventura. A sua posi\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria\u00a0 sobre uma futura segunda volta Seguro-Ventura e a sua irrita\u00e7\u00e3o perante perguntas da imprensa sobre a den\u00fancia de ass\u00e9dio sexual ter\u00e3o tido o seu peso nestes resultados. No seu discurso na noite eleitoral, Cotrim acabou por responsabilizar Montenegro pela sua derrota eleitoral. Ainda assim, revelou que a sua figura tem mais express\u00e3o eleitoral que o seu pr\u00f3prio partido \u2013 que nunca teve mais de 6%.<\/p>\n<p>Henrique Gouveia e Melo, candidato que h\u00e1 alguns anos andava a ser lan\u00e7ado pela imprensa, acabou com 12% dos votos. Foi uma candidatura lan\u00e7ada por setores do PS e PSD, que tentava ocupar o sentimento anti-partido. A sua falta de posicionamento em tudo \u2013 que, em muitos casos, se traduzia num posicionamento t\u00e3o \u00e0 direita como o pr\u00f3prio PSD \u2013 levou-o a uma derrota certa.<\/p>\n<p>Quem perdeu com mais estrondo foi mesmo Lu\u00eds Marques Mendes, o candidato que era o expect\u00e1vel para vir a tornar-se o pr\u00f3ximo Presidente da Rep\u00fablica. Seguiu os passos de Marcelo Rebelo de Sousa \u2013 tornando-se comentador semanal na televis\u00e3o e tentando colocar-se como o mais experiente para assumir o cargo. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conseguiu ir \u00e0 segunda volta, como acabou em 5\u00ba, atr\u00e1s de todos os outros candidatos da direita. Foi uma grande derrota tamb\u00e9m para o pr\u00f3prio Governo, e coloca em causa a capacidade do executivo chegar ao fim da legislatura. A liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima ao Governo, ao mesmo tempo que se iam acumulando os casos no SNS e o descontentamento generalizado com o Pacote Laboral, acabou por esvaziar a sua vota\u00e7\u00e3o quer para Seguro e Gouveia e Melo, por um lado, e Ventura e Cotrim, por outro. No final, acabou com 11% dos votos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong><br \/>\nA esquerda mant\u00e9m o refluxo eleitoral<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda, que n\u00e3o apresentou um candidato \u00fanico que pudesse realmente servir de polo alternativo a Ventura e Seguro, continuou a perder votos. Numa elei\u00e7\u00e3o com mais 1,5 milh\u00f5es de eleitores face a 2021, Catarina Martins perdeu 50 mil votos que tinham ido para Marisa Matias \u2013 na altura um p\u00e9ssimo resultado para o Bloco. Ant\u00f3nio Filipe perdeu 90 mil votos em compara\u00e7\u00e3o com Jo\u00e3o Ferreira. Jorge Pinto, cuja candidatura era a mais vulner\u00e1vel \u00e0 press\u00e3o do voto \u00fatil, acabou por n\u00e3o conseguir chegar ao 1% dos votos, ficando atr\u00e1s de Manuel Jo\u00e3o Vieira. Andr\u00e9 Pestana, que passou a campanha a afirmar que n\u00e3o tinha o apoio de qualquer partido \u2013 apesar de ter o apoio encapotado do MAS \u2013, acabou por n\u00e3o chegar aos 11 mil votos.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a press\u00e3o do voto \u00fatil penalizou sobretudo a esquerda, mas ao fazer uma campanha centrada na \u201cdefesa da constitui\u00e7\u00e3o\u201d e na salva\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, a esquerda abandonou por completo a luta por uma sociedade diferente. Entregou, de m\u00e3o beijada, o combate anti-sistema a Ventura, que acabou por ser o \u00fanico candidato a criticar a constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong><br \/>\n2\u00aa volta e a polariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Andr\u00e9 Ventura e Jos\u00e9 Seguro come\u00e7aram a campanha para a 2\u00aa volta na noite eleitoral. A\u00ed tra\u00e7aram o que viria a ser o seu discurso no pr\u00f3ximo per\u00edodo. Cada um tenta aproveitar o clima de polariza\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira. Segurou tenta transformar esta elei\u00e7\u00e3o entre \u201cdemocracia\u201d e \u201csaudosistas da ditadura\u201d; j\u00e1 Ventura coloca-a entre \u201csocialistas\u201d e \u201cn\u00e3o socialistas\u201d, tentando afirmar-se como \u00fanico candidato realmente de direita.<\/p>\n<p>Taticamente, o Governo e a AD decidiram que n\u00e3o iriam apelar ao voto em nenhum dos candidatos. No seu discurso na noite eleitoral, Montenegro colocou-se equidistante entre Ventura e Seguro. Na realidade, PS e PSD s\u00e3o os dois principais partidos da classe dominante; t\u00eam, entre si, um acordo de regime que dura h\u00e1 d\u00e9cadas. \u00c9 por isso que o PSD se recusou em avan\u00e7ar com a altera\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o sem a participa\u00e7\u00e3o do PS. Esta posi\u00e7\u00e3o do Governo s\u00f3 pode ser compreendida \u00e0 luz do que tem sido a campanha permanente de Montenegro para tentar captar eleitorado ao Chega.<\/p>\n<p>Apesar da posi\u00e7\u00e3o do Governo \u2013 que, como a 1\u00aa volta revelou, conta para pouco \u2013, a maioria das figuras ligadas a PSD, CDS e IL, colocaram-se pelo voto em Seguro. A sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com \u201cas liberdades\u201d ou com a falta de \u201cresponsabilidade\u201d; o seu receio \u00e9 que uma presid\u00eancia de Ventura \u2013 com o seu programa de choque direto com um setor da classe trabalhadora organizado \u2013 n\u00e3o permitisse a calmia social necess\u00e1ria para aplicar os ataques \u00e0 classe trabalhadora que est\u00e3o a tentar aplicar por via da negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong><br \/>\nVotamos contra Ventura na segunda volta<\/strong><\/p>\n<p>Nesta segunda volta das presidenciais, o regime apresenta duas solu\u00e7\u00f5es para a sua crise: de um lado, a extrema-direita de Andr\u00e9 Ventura, que procura canalizar a revolta social para o \u00f3dio, o racismo, o autoritarismo e a repress\u00e3o direta e imediata contra trabalhadores, imigrantes, mulheres e jovens; do outro, o centrismo de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, que promete estabilidade, modera\u00e7\u00e3o e consenso, ou seja, a continua\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas que criaram o terreno para a extrema-direita crescer.<\/p>\n<p>Seguro representa a gest\u00e3o \u201crespons\u00e1vel\u201d do mesmo sistema que nos trouxe at\u00e9 aqui. Quando Jos\u00e9 Seguro afirma que \u201cn\u00e3o quer pressionar ningu\u00e9m\u201d est\u00e1 a admitir que n\u00e3o vai tentar impedir a altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei laboral que o governo quer aplicar; n\u00e3o vai impedir a altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei da nacionalidade; n\u00e3o vai responsabilizar o governo pela crise no SNS; n\u00e3o vai travar a pilhagem dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Ir\u00e1 pressionar sim os trabalhadores a aceitar as medidas draconianas do governo. Seguro ser\u00e1 o presidente da \u201cestabilidade\u201d, leia-se \u201cestabilidade\u201d para mais facilmente aplicar ajustes contra n\u00f3s trabalhadores. Recordamos como Jos\u00e9 Seguro se colocou ao lado do PSD de Passos Coelho para aplicar as medidas de austeridade da troika.<\/p>\n<p>J\u00e1 Ventura traz uma pol\u00edtica de guerra direta aos trabalhadores. Quer limitar o direito \u00e0 greve e os direitos dos sindicatos; quer uma pol\u00edcia mais militarizada e com ainda menos escrut\u00ednio; quer intensificar a persegui\u00e7\u00e3o a imigrantes e acabar com os programas de apoio \u00e0s mulheres e pessoas queer. Trata-se de assegurar que a bonapartiza\u00e7\u00e3o em curso se faz de forma o mais acelerada poss\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma elei\u00e7\u00e3o entre \u201cdemocracia\u201d e \u201cfascismo\u201d \u2013 j\u00e1 que, por agora, o projeto de Ventura n\u00e3o passa pela destrui\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores por via de m\u00e9todos de guerra civil. Ainda assim, estas duas formas n\u00e3o s\u00e3o iguais, especialmente para setores mais vulner\u00e1veis da classe. Por isso chamamos a votar contra Andr\u00e9 Ventura. Fazemo-lo de forma defensiva, e consciente de que Seguro n\u00e3o ser\u00e1 nenhuma barreira contra o retrocesso que o Governo da AD, a IL e o Chega querem aplicar; mas conscientes que uma vit\u00f3ria de Ventura galvanizaria grupos neo-nazis, como o 1143, e implicaria mais repress\u00e3o sobre a classe trabalhadora organizada. N\u00e3o obstante, entendemos aqueles que \u2013 por tudo aquilo que Seguro representa \u2013 ir\u00e3o votar nulo ou branco nestas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria noite eleitoral, todos os candidatos \u00e0 esquerda lan\u00e7aram o seu apoio a Seguro. Muitos sob o argumento de \u201ctravar a extrema-direita\u201d ou \u201cderrotar Ventura\u201d. Mas a hist\u00f3ria mostra-nos que combater realmente a extrema-direita n\u00e3o se faz com indica\u00e7\u00f5es de voto. S\u00f3 conseguimos derrotar a extrema-direita quando conseguimos construir uma outra alternativa: quando conquistamos sal\u00e1rios dignos, mais prote\u00e7\u00e3o dos nossos direitos, sindicatos mais combativos, habita\u00e7\u00e3o acess\u00edvel.<\/p>\n<p>A Greve Geral de 11 de Dezembro mostrou que os trabalhadores, quando organizados numa luta nacional, conseguem por em movimento a defesa dos seus direitos. \u00c9 nesta nossa for\u00e7a, no avan\u00e7ar da nossa luta, na derrota do pacote laboral, que devemos concentrar a nossa energia. Aprofundar e democratizar a luta contra o pacote laboral e come\u00e7ar a construir uma alternativa pol\u00edtica quer \u00e0s pol\u00edticas do PS, quer \u00e0 pol\u00edtica racista do Chega.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, seja quem for o Presidente, continuaremos a enfrentar os mesmos patr\u00f5es, o mesmo Estado e as mesmas pol\u00edticas. E estaremos do mesmo lado de sempre: o lado das greves, da organiza\u00e7\u00e3o, da luta coletiva e da independ\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhadores Unidos, sec\u00e7\u00e3o da UIT-QI em Portugal As presidenciais de 2026 acabaram por ser uma montanha russa; das sondagens que davam para todos os gostos, acabamos com uma segunda volta entre Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro e Andr\u00e9 Ventura. 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