{"id":26032,"date":"2026-02-12T13:39:29","date_gmt":"2026-02-12T13:39:29","guid":{"rendered":"http:\/\/uit-ci.org\/?p=26032"},"modified":"2026-04-07T13:43:43","modified_gmt":"2026-04-07T13:43:43","slug":"presidenciais-2026-balanco-politico-e-desafios-imediatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uit-ci.org\/index.php\/2026\/02\/12\/presidenciais-2026-balanco-politico-e-desafios-imediatos\/?lang=pt-br","title":{"rendered":"Presidenciais 2026: balan\u00e7o pol\u00edtico e desafios imediatos"},"content":{"rendered":"<p>A segunda volta das elei\u00e7\u00f5es presidenciais ficou marcada por um resultado aparentemente inequ\u00edvoco: a vit\u00f3ria esmagadora de\u00a0<strong>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro<\/strong>, com 66,8% dos votos, contra 33,2% de\u00a0<strong>Andr\u00e9 Ventura<\/strong>. No entanto, uma leitura pol\u00edtica s\u00e9ria destes n\u00fameros exige ir al\u00e9m da fotografia final e analisar\u00a0<strong>a din\u00e2mica concreta do voto<\/strong>\u00a0que produziu este desfecho.<\/p>\n<p>Desde logo, \u00e9 imposs\u00edvel dissociar este resultado do\u00a0<strong>voto contra Ventura<\/strong>. Seguro foi muito al\u00e9m dos seus sonhos mais ousados e bateu dois recordes hist\u00f3ricos nas presidenciais \u2014 a maior percentagem de sempre, ultrapassando\u00a0<strong>Ramalho Eanes<\/strong>, e o maior n\u00famero absoluto de votos, superando\u00a0<strong>M\u00e1rio Soares<\/strong>. Mas estes recordes dizem muito menos sobre uma ades\u00e3o pol\u00edtica entusiasmada ao candidato do PS do que sobre a rejei\u00e7\u00e3o social ampla do candidato da extrema-direita.<\/p>\n<p>Este dado torna-se ainda mais significativo se recordarmos que, durante boa parte da corrida \u00e0 primeira volta, chegou a estar colocada a possibilidade de Seguro\u00a0<strong>nem sequer passar \u00e0 segunda volta<\/strong>. A passagem de 1 milh\u00e3o e 740 mil votos na primeira volta para 3 milh\u00f5es e 483 mil na segunda n\u00e3o resulta de uma s\u00fabita mobiliza\u00e7\u00e3o em torno do seu projeto pol\u00edtico, mas de uma\u00a0<strong>converg\u00eancia defensiva<\/strong>, transversal, para impedir a elei\u00e7\u00e3o de Ventura.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m do lado da extrema-direita, os n\u00fameros ajudam a desmontar narrativas. Ventura passou de 1 milh\u00e3o e 315 mil votos para 1 milh\u00e3o e 729 mil \u2014 um crescimento real, mas\u00a0<strong>muito aqu\u00e9m do discurso triunfalista<\/strong>\u00a0que o pr\u00f3prio alimentou. Desde o in\u00edcio, Ventura teve como objetivo central\u00a0<strong>capitalizar politicamente a campanha presidencial<\/strong>\u00a0para refor\u00e7ar a sua posi\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3ximas legislativas, n\u00e3o para ser efetivamente eleito para Bel\u00e9m. Nesse sentido, chegou mesmo a assumir como meta para a segunda volta igualar ou ultrapassar o resultado de\u00a0<strong>Lu\u00eds Montenegro<\/strong>\u00a0nas \u00faltimas legislativas, apresentando-se como novo l\u00edder da direita.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo num cen\u00e1rio altamente polarizado, com apenas dois candidatos em disputa, Ventura revelou\u00a0<strong>dificuldades claras em alargar a sua base eleitoral<\/strong>. Na primeira volta, os restantes candidatos de direita \u2014 Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes \u2014 somaram cerca de 2,2 milh\u00f5es de votos. Desses, Ventura conseguiu captar apenas cerca de 400 mil na segunda volta. Segundo a sondagem \u00e0 boca das urnas do ICS-ISCTE\/GfK, Ventura ter\u00e1 recolhido cerca de 31% dos votos de Cotrim (equivalente a perto de 300 mil votos), complementados com alguns votos mais residuais vindos de Gouveia e Melo e Marques Mendes.<\/p>\n<p>Este limite \u00e0 expans\u00e3o do Chega \u00e9 tamb\u00e9m vis\u00edvel na distribui\u00e7\u00e3o territorial do voto. O mapa dos resultados da segunda volta ficou inteiramente pintado a rosa, com\u00a0<strong>Seguro<\/strong>\u00a0a vencer em todos os distritos do pa\u00eds. Este dado \u00e9 particularmente significativo no Algarve, onde o Chega tinha sido a for\u00e7a mais votada nas \u00faltimas legislativas. Ainda que Faro tenha sido o distrito em que\u00a0<strong>Andr\u00e9 Ventura<\/strong>\u00a0mais se aproximou de Seguro, nem a\u00ed conseguiu inverter o resultado. Longe de traduzir uma ades\u00e3o entusi\u00e1stica ao candidato do PS, esta distribui\u00e7\u00e3o territorial confirma antes a exist\u00eancia de uma rejei\u00e7\u00e3o ampla e transversal da extrema-direita, incluindo em regi\u00f5es onde o Chega disp\u00f5e de uma base social relevante.<\/p>\n<p>Este dado \u00e9 politicamente decisivo: mostra que, apesar de ter uma base s\u00f3lida, estim\u00e1vel hoje em cerca de 1,5 milh\u00f5es de eleitores, a extrema-direita\u00a0<strong>n\u00e3o disp\u00f5e de uma autoestrada aberta para os 2 milh\u00f5es<\/strong>, mesmo quando o campo est\u00e1 reduzido a uma escolha bin\u00e1ria. H\u00e1 espa\u00e7o para crescimento do Chega? Sim. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m\u00a0<strong>resist\u00eancias profundas<\/strong>, sociais e pol\u00edticas, que travam essa expans\u00e3o, sobretudo quando se coloca a hip\u00f3tese concreta de acesso a cargos centrais do regime \u2014 resist\u00eancias que se explicam tanto pela rejei\u00e7\u00e3o do discurso autorit\u00e1rio como pelo medo real das consequ\u00eancias de um poder refor\u00e7ado do Chega.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o central destas elei\u00e7\u00f5es \u00e9, portanto, clara: o regime \u201crespira de al\u00edvio\u201d com o desfecho em Bel\u00e9m, mas sai destas presidenciais\u00a0<strong>mais tensionado<\/strong>. Este resultado, de certa forma, reorganiza o tabuleiro pol\u00edtico e prepara novos confrontos adiante.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Governo, PS e Chega ap\u00f3s as presidenciais<\/h2>\n<p>O resultado da segunda volta n\u00e3o pode ser lido como um simples momento de estabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Embora o regime, no seu conjunto, respire de al\u00edvio com a elei\u00e7\u00e3o de um Presidente fiel \u00e0s suas regras e equil\u00edbrios, o impacto destas presidenciais sobre o Governo, o PS e o Chega \u00e9\u00a0<strong>desigual e contradit\u00f3rio<\/strong>.<\/p>\n<p>No essencial, os resultados das presidenciais pouco ajudam a clarificar o concurso em curso entre o PS e o Chega sobre quem se afirma como principal for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o ao Governo. O Chega sai refor\u00e7ado na sua base eleitoral e na sua capacidade de press\u00e3o pol\u00edtica, enquanto o PS conquista a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com uma vota\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2014 ainda que profundamente marcada por um contexto excecional e por um voto defensivo que nada tem de compar\u00e1vel com anteriores vit\u00f3rias presidenciais.<\/p>\n<p>Nenhum dos dois obt\u00e9m, por esta via, uma hegemonia clara no campo da oposi\u00e7\u00e3o: o Chega consolida-se como for\u00e7a de protesto e desestabiliza\u00e7\u00e3o, mas enfrenta limites sociais evidentes; o PS ganha uma posi\u00e7\u00e3o institucional privilegiada, mas sem traduzir isso, para j\u00e1, num refor\u00e7o da sua influ\u00eancia social ou eleitoral. A defini\u00e7\u00e3o de quem disputa efetivamente a oposi\u00e7\u00e3o ao Governo n\u00e3o ser\u00e1 decidida em Bel\u00e9m, mas no terreno dos conflitos sociais e pol\u00edticos que se avizinham.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O PSD: o regime respira de al\u00edvio, o governo nem tanto<\/h3>\n<p>Nos \u00faltimos vinte anos, a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica esteve sempre nas m\u00e3os do PSD, primeiro com Cavaco Silva e depois com Marcelo Rebelo de Sousa. A derrota do PSD nestas presidenciais marca, por isso, uma\u00a0<strong>rutura simb\u00f3lica importante<\/strong>\u00a0que fez com que o Governo sa\u00edsse fragilizado destas elei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 desde a primeira volta.<\/p>\n<p>O candidato assumido da AD,\u00a0<strong>Lu\u00eds Marques Mendes<\/strong>, ficou relegado para um humilhante quinto lugar, com apenas 11% dos votos. J\u00e1\u00a0<strong>Henrique Gouveia e Melo<\/strong>, apresentado como \u201cindependente\u201d mas apoiado por amplos setores do PSD (e tamb\u00e9m do PS), terminou em quarto. Estes resultados revelaram a incapacidade do Governo e do\u00a0<strong>PSD<\/strong>\u00a0de mobilizar um candidato vi\u00e1vel \u00e0 Presid\u00eancia, transformando a primeira volta numa derrota pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que deve ser lida a segunda volta. A elei\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro<\/strong>\u00a0garante ao regime um Presidente previs\u00edvel e institucionalmente respons\u00e1vel, mas\u00a0<strong>n\u00e3o resolve automaticamente a fragilidade do Governo<\/strong>. O cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel no curto prazo n\u00e3o \u00e9 o de uma crise pol\u00edtica iminente, j\u00e1 que tanto Montenegro como Seguro fizeram quest\u00e3o de sublinhar a necessidade de p\u00f4r termo ao ciclo de legislaturas interrompidas e dissolu\u00e7\u00f5es sucessivas que marcou os \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>No entanto, o Governo vai acumulando desgaste e deixando evidentes fragilidades na equipa de ministros \u2013 nomeadamente na gest\u00e3o dos inc\u00eandios e das tempestades, que agora levou \u00e0 demiss\u00e3o da ministra da Administra\u00e7\u00e3o Interna -, fatores que podem contribuir para a instabilidade do governo, em particular tendo em conta a tend\u00eancia ao agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O PS: vit\u00f3ria institucional, com um novo instrumento pol\u00edtico nas m\u00e3os<\/h3>\n<p>O PS reivindica legitimamente a vit\u00f3ria em Bel\u00e9m, mas f\u00e1-lo de forma contida e reveladora. Durante a campanha, sobretudo na primeira volta, os seus principais dirigentes estiveram relativamente ausentes. O atual secret\u00e1rio-geral,\u00a0<strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Carneiro<\/strong>, limitou-se a uma presen\u00e7a discreta na noite eleitoral da segunda volta, evitando qualquer tentativa de transformar o resultado numa vit\u00f3ria partid\u00e1ria exuberante.<\/p>\n<p>Esta atitude reflete uma realidade conhecida:\u00a0<strong>ningu\u00e9m acredita que a elei\u00e7\u00e3o de Seguro, por si s\u00f3, altere significativamente a correla\u00e7\u00e3o eleitoral entre PS e AD<\/strong>. O voto que garantiu a vit\u00f3ria hist\u00f3rica foi maioritariamente um voto defensivo, n\u00e3o uma transfer\u00eancia autom\u00e1tica de confian\u00e7a pol\u00edtica para o PS enquanto alternativa de governo.<\/p>\n<p>Ainda assim, o controlo da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica oferece ao PS uma\u00a0<strong>ferramenta pol\u00edtica relevante<\/strong>. Atrav\u00e9s do veto, da interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica e da capacidade de condicionar a agenda pol\u00edtica, Bel\u00e9m pode funcionar como espa\u00e7o de diferencia\u00e7\u00e3o face ao Governo e como ponto de apoio numa eventual disputa por elei\u00e7\u00f5es antecipadas. Trata-se menos de um \u201cregresso do PS\u201d e mais de uma\u00a0<strong>posi\u00e7\u00e3o institucional vantajosa<\/strong>\u00a0num contexto de instabilidade latente.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O Chega: consolida\u00e7\u00e3o como oposi\u00e7\u00e3o, com limites \u00e0 hegemonia \u00e0 direita<\/h3>\n<p>Apesar da derrota,\u00a0<strong>Andr\u00e9 Ventura<\/strong>\u00a0n\u00e3o sai destas presidenciais politicamente enfraquecido. Pelo contr\u00e1rio, atinge o melhor resultado da sua hist\u00f3ria eleitoral, refor\u00e7a a sua visibilidade e consolida-se como o principal polo de oposi\u00e7\u00e3o ao Governo no plano parlamentar e medi\u00e1tico.<\/p>\n<p>A candidatura presidencial cumpriu, em larga medida, os seus objetivos estrat\u00e9gicos: ampliar a base eleitoral e projetar Ventura como figura central da vida pol\u00edtica nacional. Neste sentido, a presid\u00eancia nunca foi um fim em si mesmo, mas um\u00a0<strong>passo interm\u00e9dio<\/strong>\u00a0no caminho para as pr\u00f3ximas legislativas.<\/p>\n<p>No entanto, os limites desta consolida\u00e7\u00e3o s\u00e3o igualmente claros. Ventura falhou o objetivo de igualar ou ultrapassar a vota\u00e7\u00e3o da AD e n\u00e3o conseguiu agregar o conjunto do eleitorado de direita. Existe uma direita moderada, socialmente relevante, que prefere votar num candidato do PS a abrir a porta a uma presid\u00eancia da extrema-direita. Isso impede, pelo menos por agora, que Ventura se afirme legitimamente como \u201cl\u00edder da direita\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, o resultado d\u00e1-lhe margem para\u00a0<strong>aumentar a press\u00e3o sobre o Governo<\/strong>, explorar cada crise social e testar cen\u00e1rios de instabilidade pol\u00edtica, incluindo a possibilidade de elei\u00e7\u00f5es antecipadas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os problemas no horizonte: resposta a cat\u00e1strofes e reforma laboral<\/h2>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais funcionaram como antec\u00e2mara de um per\u00edodo de tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas que colocar\u00e1 \u00e0 prova o Governo, o novo Presidente e o pr\u00f3prio regime. O verdadeiro teste \u00e0 correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sa\u00edda das urnas n\u00e3o se dar\u00e1 no plano institucional abstrato, mas em\u00a0<strong>conflitos concretos<\/strong>, com impacto direto na vida das popula\u00e7\u00f5es \u2014 conflitos que o pr\u00f3prio\u00a0<strong>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro<\/strong>\u00a0identificou como centrais no per\u00edodo que se abre.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Tempestade, emerg\u00eancia clim\u00e1tica e fal\u00eancia do Estado<\/h3>\n<p>A gest\u00e3o dos danos provocados pela recente tempestade constitui o primeiro grande teste pol\u00edtico do p\u00f3s-presidenciais. Mais do que um fen\u00f3meno excecional, trata-se de um epis\u00f3dio que evidencia a\u00a0<strong>vulnerabilidade estrutural do pa\u00eds<\/strong>\u00a0face a situa\u00e7\u00f5es de cat\u00e1strofe e a fragilidade de um Estado enfraquecido por d\u00e9cadas de cortes, privatiza\u00e7\u00f5es e subfinanciamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>As dificuldades na resposta da prote\u00e7\u00e3o civil, os atrasos nos apoios \u00e0s popula\u00e7\u00f5es afetadas e a tend\u00eancia para empurrar responsabilidades para o mercado \u2014 seguros, solu\u00e7\u00f5es individuais, caridade \u2014 exp\u00f5em os limites de um modelo que abandona os mais vulner\u00e1veis nos momentos de crise. Este cen\u00e1rio cria um terreno f\u00e9rtil para duas respostas opostas: por um lado, o discurso securit\u00e1rio e autorit\u00e1rio da extrema-direita, que explora o sentimento de abandono; por outro, a promessa centrista de \u201cnormalidade\u201d e gest\u00e3o t\u00e9cnica, que evita enfrentar as causas estruturais do problema.<\/p>\n<p>Neste contexto, a extrema-direita procura capitalizar cada falha do Estado, apresentando-se como voz dos \u201cesquecidos\u201d, enquanto os partidos do regime tentam conter o conflito e reduzir a crise a um problema de efic\u00e1cia administrativa. O que est\u00e1 em causa, por\u00e9m, \u00e9 uma escolha pol\u00edtica:\u00a0<strong>refor\u00e7ar o Estado social e os servi\u00e7os p\u00fablicos ou continuar a gerir a crise \u00e0 custa das popula\u00e7\u00f5es trabalhadoras<\/strong>.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Reforma laboral: o verdadeiro campo de batalha<\/h3>\n<p>Entre os dossi\u00eas que o pr\u00f3prio Seguro apontou como priorit\u00e1rios est\u00e1 a\u00a0<strong>reforma laboral anunciada pelo Governo<\/strong>. Este pacote representa um ataque direto aos direitos dos trabalhadores, aprofundando a precariedade, fragilizando a negocia\u00e7\u00e3o coletiva e refor\u00e7ando o poder patronal. Revelou-se de tal forma impopular que conseguiu empurrar as centrais sindicais para a primeira greve geral em mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Durante a campanha, Seguro foi claro quanto ao seu crit\u00e9rio:\u00a0<strong>promulgar\u00e1 a reforma laboral caso exista acordo em concerta\u00e7\u00e3o social<\/strong>, isto \u00e9, caso o Governo consiga o aval da UGT. Este posicionamento \u00e9 politicamente revelador. A UGT, dirigida por quadros historicamente ligados ao PS e ao PSD, tem cumprido precisamente esse papel ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas:\u00a0<strong>legitimar, atrav\u00e9s da concerta\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas que atacam os trabalhadores<\/strong>, oferecendo uma cobertura social e institucional \u00e0s op\u00e7\u00f5es do Governo e das confedera\u00e7\u00f5es patronais.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es posteriores de Seguro, afirmando que, mesmo com o acordo da UGT, ter\u00e1 sempre de avaliar o resultado final do pacote laboral revisto pelo Governo, revelam uma abordagem mais cuidadosa, mas n\u00e3o alteram este dado de fundo. N\u00e3o estamos perante um compromisso de defesa dos direitos laborais, mas perante uma\u00a0<strong>gest\u00e3o institucional do conflito<\/strong>, que aceita como ponto de partida um acordo com a central sindical mais integrada no regime.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que\u00a0<strong>n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar em Bel\u00e9m como trav\u00e3o \u00e0 ofensiva laboral<\/strong>. O eventual uso do veto presidencial ou de reservas p\u00fablicas ser\u00e1 sempre condicionado pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e pela l\u00f3gica da concerta\u00e7\u00e3o. O desfecho deste confronto n\u00e3o ser\u00e1 decidido em gabinetes, mas na\u00a0<strong>capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<\/strong>, na resposta sindical e na constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa pol\u00edtica que n\u00e3o aceite a l\u00f3gica de \u201cmal menor\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m neste terreno a extrema-direita procurar\u00e1 intervir, apresentando-se falsamente como oposi\u00e7\u00e3o \u201canti-sistema\u201d, quando na pr\u00e1tica defende um projeto profundamente hostil aos direitos laborais e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A disputa decisiva<\/h2>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais n\u00e3o resolveram as contradi\u00e7\u00f5es centrais da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Portugal. A derrota de Andr\u00e9 Ventura em Bel\u00e9m n\u00e3o significou a derrota da extrema-direita, assim como a vit\u00f3ria hist\u00f3rica de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro n\u00e3o representou uma recomposi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida do PS.<\/p>\n<p>O governo ganhou tempo, mas continua fragilizado; o PS disp\u00f5e agora de um novo instrumento pol\u00edtico sem base social renovada; e o Chega consolida-se como for\u00e7a de desestabiliza\u00e7\u00e3o, ainda que com limites claros \u00e0 sua capacidade de hegemonizar a direita. A disputa sobre quem lidera a oposi\u00e7\u00e3o ao Governo permanece em aberto.<\/p>\n<p>J\u00e1 para os trabalhadores, o essencial no que toca ao agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida ser\u00e1 decidido menos no plano institucional do que no terreno das lutas concretas. \u00c9 nesse terreno que se jogar\u00e3o as batalhas decisivas do pr\u00f3ximo per\u00edodo: na resposta \u00e0s cat\u00e1strofes, na defesa dos servi\u00e7os p\u00fablicos, na resist\u00eancia ao ataque aos direitos laborais e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria.<\/p>\n<p>Sem uma resposta \u00e0 esquerda, combativa, enraizada e independente dos equil\u00edbrios do regime, o descontentamento social continuar\u00e1 a ser canalizado por solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias ou por falsas alternativas. \u00c9 essa a alternativa que estamos empenhados em construir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A segunda volta das elei\u00e7\u00f5es presidenciais ficou marcada por um resultado aparentemente inequ\u00edvoco: a vit\u00f3ria esmagadora de\u00a0Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, com 66,8% dos votos, contra 33,2% de\u00a0Andr\u00e9 Ventura. 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