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Bélgica e a onda de greves que percorre a Europa

by UIT-CI
dezembro 3, 2025
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Bélgica e a onda de greves que percorre a Europa
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Ezequiel Peressini, dirigente da Izquierda Socialista da Argentina e da UIT-CI

Na Bélgica, Itália, Portugal e França vêm ocorrendo grandes processos de mobilizações e greves da classe trabalhadora contra os ajustes dos governos. As greves não são fatos isolados. São parte da resposta da classe trabalhadora da Europa diante dos ataques dos governos que, em nome do “Plano ReArm”, cortam o gasto público para sustentar um maior gasto militar, seguir salvando os grandes capitalistas da crise – particularmente a indústria metalúrgica e automobilística – ou garantir o pagamento da dívida externa; política que, em anos anteriores, afundou a Grécia e o Estado Espanhol sob a bota da Troika e o salvamento dos grandes bancos após a crise de 2008–2009.

Em 2025, a crise se agravou. A contraofensiva imperialista com a qual Donald Trump busca manter a hegemonia capitalista e imperialista levou a choques com a União Europeia, que rapidamente cedeu. Em 21 de agosto, Trump e Von der Leyen assinaram um acordo que consagra a dependência energética, militar e comercial da UE em relação aos EUA, demonstrando que a UE é um gigante com pés de barro.

Diante dessa situação, a classe trabalhadora e os povos empobrecidos da Europa não ficam de braços cruzados e enfrentam os orçamentos de ajuste que os governos pretendem aprovar nos parlamentos. As grandes e recorrentes greves na Bélgica, França, Itália e Portugal anunciam um dezembro quente para a Europa.

Bélgica: greves e mobilizações históricas enfrentam o governo de ultradireita

Na Bélgica houve eleições em 9 de julho de 2024, junto com as do Parlamento Europeu. A grande dispersão dos votos impossibilitou a formação de governo, e por mais de sete meses o país teve um primeiro-ministro interino. Nas eleições, o partido Nova Aliança Flamenga (N-VA) obteve apenas 16%, mas ainda assim foi a primeira força, conquistando somente 24 dos 150 assentos do Parlamento.

Em 3 de fevereiro de 2025, o regime conseguiu formar governo e designou o ultradireitista Bart De Wever (N-VA) como primeiro-ministro. Para isso, formaram a coalizão “Arizona” — nome inspirado nas cores da bandeira do estado norte-americano — composta por quatro partidos, incluindo democratas-cristãos, social-democratas flamengos e o Movimento Reformador.

A Bélgica está dividida em três regiões: Flandres (holandês, 6,7 milhões de habitantes), Valônia (francófona, 3,7 milhões) e Bruxelas (multilíngue, 1,2 milhão). A ultradireita da N-VA integra a ala nacionalista flamenga e é aliada europeia de Georgia Meloni, da eurodeputada Marion Maréchal e do presidente da República Tcheca, Petr Fiala, formando juntos a aliança dos “Conservadores e Reformistas”. O N-VA defende a independência de Flandres. A crise econômica das últimas décadas deslocou o poder econômico da Valônia para Flandres. A Bélgica é o 27º país mais endividado da UE e supera 100% do PIB. Isso faz com que as políticas de austeridade estejam na ordem do dia do governo de ultradireita.

Rumo às maiores greves das últimas décadas

Em 13 de janeiro, estourou a primeira greve geral contra a reforma da previdência do novo governo, que pretende confiscar 3 bilhões de euros por ano dos trabalhadores aumentando a idade de aposentadoria de 65 para 66 anos em 2025, chegando aos 70 anos em 2050. Além disso, quer liquidar regimes especiais de ferroviários, policiais e militares.

A adesão dos trabalhadores ferroviários foi massiva, com 2/3 sem comparecer ao trabalho. No transporte aéreo, a greve cancelou 40% dos voos, mesmo com serviços mínimos obrigatórios desde 2018. Em Bruxelas, entre 30 e 50 mil pessoas se mobilizaram.

A segunda jornada de greve, em 27 de janeiro, teve forte participação de trabalhadores da educação (adesão de 1/3). O governo respondeu demitindo 500 educadores. Também se mobilizaram os trabalhadores automotivos, afetados pela crise na Alemanha: a Audi anunciou a demissão de 4.000 trabalhadores da planta de Bruxelas. Os trabalhadores confiscaram a chave de 200 carros em protesto.

A terceira jornada, em 13 de fevereiro, foi a maior, com adesão de ferroviários, transporte aéreo, educação e administração pública. Até militares e policiais que estavam de folga participaram.

A falta de respostas do governo aumentou a indignação. Em 14 de outubro ocorreu uma mobilização gigantesca — a maior em 40 anos — com mais de 140 mil pessoas. Em 7 de setembro, 110 mil marcharam em solidariedade à Palestina contra o genocídio criminoso de Israel.

Retornam as greves contra a aprovação do orçamento de 2026

No final de novembro, Bart De Wever solicitou ao rei Filipe uma prorrogação de 50 dias para aprovar o projeto orçamental para o ano de 2026. O atraso na apresentação do orçamento deve-se ao aprofundamento das fissuras entre as forças da coalizão governante em torno do aumento do IVA e do impacto dos cortes nas prestações sociais. Finalmente, a coalizão chegou a um acordo antioperário e de ajuste, e o novo orçamento foi anunciado em 24 de fevereiro, no mesmo dia em que ocorreu uma greve geral de três dias consecutivos.

O primeiro dia da greve foi realizado com êxito na segunda-feira, 24, com a paralisação dos serviços de transporte público e ferroviário em todo o país. Na terça-feira, 25, somaram-se os trabalhadores dos demais serviços públicos: administrativos, hospitais, correios e educadores. Na quarta-feira, 26, a greve tornou-se geral e concretizou-se também no setor privado, com piquetes e mobilizações em todo o país.

O orçamento apresentado e defendido pelo governo de extrema-direita, liderado por Bart De Wever, busca impor cortes orçamentários em pensões, prestações sociais, saúde, educação e cultura, para arrecadar 10 mil milhões de euros até 2030, com o objetivo de pagar a elevada dívida do país. “O nosso orçamento é estruturalmente deficitário”, argumentou o primeiro-ministro, acrescentando: “se não tens coragem de tomar medidas drásticas, não és digno de governar”; uma afirmação recorrente entre os novos governos de extrema-direita, como Meloni na Itália ou Milei na Argentina, e que despertou um profundo repúdio da classe trabalhadora.

O novo orçamento prevê o congelamento da indexação salarial pela inflação para trabalhadores e pensionistas, o que reduziria o salário de 41% dos empregados. Com o plano “retorno ao trabalho”, o governo pretende impor a reincorporação compulsória de 100 mil trabalhadores com licenças prolongadas e aumentar as coparticipações nas consultas médicas. Serão aumentados os impostos especiais sobre o gás. Embora o aumento geral do IVA não tenha sido incluído — para garantir o apoio completo da coalizão no Parlamento — serão aumentados os impostos sobre hotéis e campings, eventos desportivos, culturais e recreativos, e viagens aéreas. Além disso, o “governo Arizona” procura ampliar a jornada de trabalho de docentes sem aumento salarial, elevar os custos da educação universitária e impor o aumento de impostos sobre gasolina e combustíveis.

Enquanto o governo mantém o corte histórico contra a classe trabalhadora, assim como o resto dos governos europeus, ocorre um forte aumento na despesa com Defesa, que receberá um incremento orçamental de 4 mil milhões de euros para cumprir o padrão de 2% do PIB exigido pela OTAN em 2025, em vez de 2029.

A Federação Geral do Trabalho da Bélgica (FGTB), como principal sindicato, e o Partido dos Trabalhadores da Bélgica (PTB), que criticam o governo, devem dispor-se a construir um plano de luta para derrotar o governo, sem dar um passo atrás nem ceder a negociações enganosas feitas pelas costas dos trabalhadores, como busca impor Bart De Wever sob ameaças de renúncia caso não haja acordo no parlamento. A mobilização na Bélgica deve continuar e aprofundar-se junto à onda de greves que percorre a Europa.

Uma nova onda de greves percorre a Europa

As grandes greves na Bélgica não são ações isoladas. São uma resposta à política sustentada pelos governos, que fez com que, segundo o relatório da Eurostat, 21% da população — ou seja, 93,3 milhões de pessoas na UE — estivesse em risco de pobreza ou exclusão social em 2024, ao mesmo tempo em que se preparam para aumentar os gastos com defesa¹ em 800 mil milhões de euros para alimentar as máquinas de guerra.

Na França, em 10 de setembro, milhares tomaram as ruas contra o plano orçamental para 2026 apresentado pelo ex-primeiro-ministro François Bayrou, que prevê cortes de até 44 mil milhões de euros e a eliminação de dois feriados. Bayrou caiu no parlamento e foi substituído por Sébastien Lecornu, que manteve os ajustes. Na quinta-feira, 18, realizou-se uma greve geral com mobilizações nas principais cidades do país, convocada por todas as centrais sindicais, as quais informaram que mais de um milhão de pessoas se mobilizaram naquele dia. Em 2 de dezembro de 2025, uma nova paralisação ocorreu, com cerca de 32 mil pessoas nas ruas de Paris e em 150 mobilizações organizadas em diversas cidades.

Na Itália, a greve geral dos dias 28 e 29 de outubro demonstrou a capacidade de luta das trabalhadoras e trabalhadores italianos, que desde a chegada ao poder da ultradireitista Giorgia Meloni não deixam de se mobilizar. Agora, continuam suas ações contra o orçamento de ajuste e mantêm mobilizações em solidariedade a Gaza, à Palestina e contra o genocídio perpetrado por Israel. Durante o grande paro de 3 de outubro, no qual o combativo USB e a CGIL concordaram em “parar tudo”, ocorreram mobilizações históricas com mais de dois milhões de pessoas para repudiar a interceptação e o sequestro da Flotilha Global Sumud, que se dirigia a Gaza para romper o cerco. As mobilizações de 28 e 29 foram contundentes e fortemente acompanhadas pelo movimento estudantil. As jornadas de greve também foram efetivas; embora a CGIL tenha se retirado da convocatória, prepara uma greve geral para 12 de dezembro.

Em Portugal, o governo da AD (PSD/CDS), com o apoio do Chega, IL e de todas as associações patronais, está implementando a maior ofensiva contra as trabalhadoras e trabalhadores desde a intervenção da Troika, com uma nova reforma trabalhista. Com ela, pretendem impor horários irregulares, retirar garantias laborais, facilitar despedimentos e estender períodos de prova sob o falso argumento de “modernizar as relações laborais”, institucionalizando a precariedade e abrindo caminho para um modelo baseado em flexibilidade total, baixos salários e insegurança permanente. Após meses de paralisia e negociações, a CGTP e a UGT foram obrigadas a convocar uma greve geral para 11 de dezembro, somando-se à onda de greves que percorre a Europa.

Essas poderosas respostas da classe trabalhadora e dos povos empobrecidos da Europa devem manter-se e expandir-se para derrotar os orçamentos dos governos que destinam milhares de milhões à reacionária indústria armamentista. As próximas greves de 11 de dezembro em Portugal e 12 de dezembro na Itália podem triunfar e derrotar cada governo, abrindo caminho para a reorganização das trabalhadoras e trabalhadores, das e dos estudantes e do movimento de mulheres e dissidências. As greves e mobilizações em curso, junto aos milhões de ativistas que apoiam a luta por uma Palestina livre do rio ao mar, mostram o caminho para enfrentar a contraofensiva imperialista de Trump, seus aliados na União Europeia e os governos de extrema-direita, liberais ou social-democratas que buscam liquidar as conquistas históricas da classe trabalhadora.

1. Ver declaração completa “Nem um euro para o rearmamento imperialista, o dinheiro público para salários, pensões, emprego e gastos sociais”, de 24 de novembro, das secções europeias da UIT-CI, em www.uit-ci.org

3 de dezembro de 2025

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